Quando você morde um pêssego suculento e chega àquele “caroço” duro no centro, você não está apenas encontrando um obstáculo para os seus dentes. Você está interagindo com uma das estratégias evolutivas mais fascinantes das angiospermas: a drupa.
Embora no dia a dia chamemos tudo de “fruta”, a botânica é precisa em suas classificações. Hoje, vamos mergulhar na morfologia e na ecologia desse tipo de fruto.

O que define uma Drupa?
Em termos botânicos, a drupa é um tipo de fruto carnoso, geralmente indeiscente (que não se abre espontaneamente quando maduro), contendo, na maioria das vezes, uma única semente.
A característica diagnóstica — aquela que bate o martelo na classificação — está na estrutura do seu pericarpo (a parede do fruto), que é dividido em três camadas distintas:
Exocarpo (ou epicarpo) : A “casca” externa.
Mesocarpo: A parte geralmente carnosa e comestível (mas nem sempre, como ocorre no coco).
Endocarpo: A camada interna rígida, lignificada (lenhosa), que envolve e protege a semente.
O que chamamos popularmente de “caroço” é, na verdade, o endocarpo + a semente lá dentro. Essa armadura rígida é essencial para a estratégia de vida da planta.
Exemplos de drupas:
Há uma diversidade enorme de drupas. Você provavelmente consome várias delas sem saber a classificação. Como exemplos podem ser citados o pêssego, a ameixa, a azeitona, a manga, o café, o coco-da-baía, a lichia, a cereja silvestre, dentre outros.



A importância ecológica: Uma engenharia de dispersão
Por que uma planta gastaria tanta energia para criar um endocarpo tão duro? A resposta está na dispersão de sementes. A drupa é uma obra-prima da zoocoria (dispersão por animais). A planta oferece um “pagamento” energético (o mesocarpo doce e nutritivo) para que um animal transporte seus genes para longe. O fato da semente estar revestida pelo endocarpo, duro, impede que a mesma seja triturada pelos dentes do animal ou digerida pelos ácidos estomacais, matando o embrião. O endocarpo lenhoso funciona como um escudo biológico, protegendo a semente contra a trituração (pelos dentes) e contra a digestão. Isso permite que a semente atravesse todo o trato digestivo do animal (seja um pássaro, um macaco ou um morcego) e saia intacta nas fezes.
Quando o animal defeca longe da planta-mãe, a semente já cai adubada e pronta para germinar em um novo território, reduzindo a competição entre a mãe e a filha. Espécies nativas do Cerrado e da Mata Atlântica dependem intrinsecamente desse mecanismo para a manutenção da biodiversidade.
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